Idade da Pedra - Esquina da Barão com a XV. Primeiro Calçamento de Sorocaba
Celso Marvadão

Alguma coisa acontece no meu coração, quando cruzo a São Bento e a XV com a Barão. É muita memória afetiva sobre o comércio para contar.

Esta é uma foto rara da esquina da Rua da Ponte (XV de Novembro) com a Barão do Rio Branco, esta chamada de Rua do Comércio, de tantas histórias e iniciativas educacionais e de saudosas lojas. O flagrante é de 1921, e foi registrado por Francisco Scardigno, provavelmente, pelo ângulo, do alto do antigo prédio da Loja Maçônica Perseverança III, que há muito marca presença neste ponto central.

A loja Ao Preço Fixo está com a sua "liquidação annual", com “abatimento” (desconto) especial. Esse estabelecimento ficou ali por décadas. No seu lugar, foi construído o prédio da antiga Companhia Telefônica Brasileira (CTB), mais tarde ocupado pelaTelesp e, em nossos dias, pela Telefônica. Mas por ali também se instalou por alguns anos a Companhia Rede Telefônica Sorocabana (CRTS), da família Beldi, que prestou serviços à Telesp. A Splice fez todo o projeto de expansão das linhas telefônicas, no início dos anos 70. A CRTS inclusive construiu prédio na esquina da Barão com a Álvaro Soares, onde funcionou por um tempo a Câmara Municipal.

Mas essa aglomeração no local não é por causa da promoção anual da loja. Marca o ato de entrega ou início da obra de calçamento (paralelepípedos) na Barão e XV, uma novidade. Outras fotos da época mostram as duas vias públicas já calçadas com pedras.

A Rua São Bento, muito antigamente, tinha valas de pedras nas laterais, para drenar as águas, mais tarde chegou o “apedregulhamento” socado do solo, espécie de “macadame”. Notem que está presente no ato até um grupo de policiais em formação, mostrando ser uma solenidade, com muita gente de chapéu e guarda-chuva.

Em 1921, o prefeito (intendente) era o capitão Joaquim Eugênio Monteiro de Barros, que havia tomado posse no dia 5 de janeiro daquele ano. Sorocaba demorou para ter ruas calçadas porque era uma cidade de poucos recursos públicos e também porque pedra não combinava muito com cascos de mulas das tropas.

Observem o bonde, os casarões antigos ainda de taipa e, lá no alto, o Além Ponte.

A professora e escritora Rosa Maria Baddini Keller lembra que Ao Preço Fixo era uma loja antiga. “Ali, aos cinco anos (tenho a cena ainda na minha retina), em companhia do meu inesquecível pai, o advogado Álvaro Baddini, comprei o meu primeiro pano para bordar, no qual se encontrava desenhado um cozinheiro fazendo bifes, derrubando-os, e a sentença: ‘E lá se foram meus bifes’. A loja durou bastante, acho que até o fim dos anos 50. Quem atendia era um velhinho simpático, sentado numa, quando estivemos lá. Que saudade!

Na parte baixa da foto, percebe-se a marca do autor, ou parte dela. A Photo Scardigno produziu algumas fotos marcantes a partir de 1914. O estúdio ficava na Rua São Bento, como lembra sua neta Martha Bueno: “Era do meu avô Francisco Scardigno. Ele mudou depois para São Paulo, onde teve um salão famoso na rua Doze de Outubro (Lapa)”.

A professora Ione Borghi também se recorda do estúdio: “Tinha uma foto em tamanho real numa espécie de vitrine, me recordo que era uma mocinha linda”.

(Num próximo artigo, tratarei, com mais detalhes, da história dos calçamentos, do macadame e da pavimentação asfáltica das vias públicas de Sorocaba, melhoramentos que fortaleceram o comércio da cidade, marcada por sérios problemas de erosão, por causa da topografia e tipo de solo).