O dia em que o paralelepípedo posou de autoridade e virou “Sua Excelência”, em Sorocaba
Celso Marvadão

O amigo Adolfo Frioli me deu a dica e é verdade. Existe uma foto interessante tirada por Francisco Scardigno, em 1921, na Câmara, mostrando a pedra que virou o paralelepípedo símbolo do calçamento em Sorocaba. Olhe a pose da pedra na mesa das autoridades... Sua excelência, o paralelepípedo.

A foto registra inclusive a presença do jornalista Cecê de Camargo César. Ao lado da marca d’água bastante apagada do autor, dá para ler: “Photographia commemmorativa da assinatura do contrato para calçamento a parallellepípedos da cidade de Sorocaba, em 13 de agosto de 1921”.

Eu já publiquei aqui, há algum tempo, outra foto de Scardigno, documentando a presença de muitas pessoas no ato de entrega do primeiro trecho do calçamento, na esquina das ruas Barão do Rio Branco e XV de Novembro, ocorrido em 31 de dezembro daquele ano..

A partir daquela data, praticamente todas as ruas do centro da cidade foram sendo calçadas pelo novo sistema. Fotos antigas comprovam isso. Pelas ruas, já não passavam tropas de mulas que atolavam na antiga terra batida ou que fizeram trepidar as tentativas posteriores de calçamento.

Chegava ao fim o antigo piso à base de pedregulho, saibro, areia ou cascalho (tipo virado paulista) ou feito de camadas desses materiais submetidas à forte compressão, ou então esse sistema combinado com a aplicação de pedras irregulares sem técnica apurada (estilo pé de moleque), obras muitas vezes patrocinadas pelos próprios comerciantes.

Ficava para trás também a tentativa de um tipo de “macadame caipira” (pedriscos misturados com areia e saibro, não sei se Sorocaba chegou a usar breu). As camadas eram comprimidas e contavam com alvenaria de pedras nas laterais da rua, com leitos de forma abaulada, formando calhas para escoar as águas das chuvas. A técnica provocava também lama e poeira.

Foto de Júlio Dursky, de 1886 (veja na foto), captou o calçamento desse tipo, perto do Gabinete de Leitura, com o terrenão da praça central cheio de valetas causadas pela erosão. O calçamento por paralelepípedos era um grande avanço. E promovia o correto arruamento das vias, com os passeios, dando nova vida para o comércio sorocabano. Em calçamentos anteriores, havia inclusive a colaboração de algumas lojas para a colocação de pedras de tamanho irregular, que não resolviam o problema.

Durante o Império, muitas ruas foram criadas e receberam algum tipo de calçamento. Foi dado um “trato” no sistema viário diante da expectativa de que o imperador D. Pedro II viria para a inauguração da ferrovia Sorocabana, em 1875, o que não aconteceu.

Asfalto, na concepção moderna, com derivados do petróleo, só a partir de 1951, quando foi inaugurado, até Sorocaba, o asfaltamento do trecho inicial da futura rodovia Raposo Tavares (entregue e denominada em 1954), antiga estrada São Paulo-Paraná).

No final de 1949, o prefeito Gualberto Moreira assinou decreto tratando das condições para asfaltamento e dos procedimentos para troca dos paralelepípedos, já com a possibilidade de cobrança junto aos proprietários. O sistema de paralelepípedos trazia maior estabilidade do piso das ruas e tinha lá o seu encanto provinciano. Nem sempre asfalto é sinal de progresso. Talvez seja por isso que Sorocaba ainda mantém algumas ruas cobertas por pedras.

(Fotos acervo Museu Histórico Sorocabano)